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14 de janeiro de 2018 às 02:00

Contra falta de carisma, Alckmin recheia discursos com 'causos' e piadas

Debaixo de uma chuva fina e persistente, o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), subiu ao palco armado debaixo de uma tenda de plástico em São Bernardo do Campo (SP), na última segunda-feira (8), com os sapatos e a barra da calça social sujos de la

Debaixo de uma chuva fina e persistente, o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), subiu ao palco armado debaixo de uma tenda de plástico em São Bernardo do Campo (SP), na última segunda-feira (8), com os sapatos e a barra da calça social sujos de lama.

Deu bom dia, saudou as autoridades e começou a falar dos benefícios das obras que ele estava inaugurando na represa Billings. "Vamos tirar, por mês, 1 bilhão de litros de esgoto in natura", prometeu. "Será um grande ponto de turismo, vai gerar emprego, ser fonte de recreação, de pesca."

Pausou a fala, levou a mão direita à cabeça, coçou os não tão numerosos fios de cabelo e, santista, sorriu timidamente. "E eu estou achando que 2018 vai ser o ano do Peixe..."

A plateia riu.

Nos dez minutos restantes de discurso, o governador ainda sacaria outras duas histórias de sua cartela de piadas e "causos", aos quais recorre em tudo quanto é solenidade pública.

Os preferidos se passam em sua cidade natal, Pindamonhangaba, a 140 quilômetros da capital paulista. Foi lá, no coração do Vale do Paraíba, que Alckmin, 65, começou a carreira política, nos anos 1970, aos 20 anos, primeiro como vereador e depois prefeito.

Rememorando personagens e lendas interioranas, Alckmin procura criar identidade com o eleitor, com frequência usando um tom de deboche ou humildade.

Se o estilo funcionou nas campanhas em São Paulo (ele se elegeu três vezes governador), como pré-candidato a presidente da República o desafio é outro. Sua equipe já detectou que o maior desafio de comunicação da campanha será desafazer a imagem de político frio e distante do povo.

Com 9% da intenção de voto, no melhor cenário do Datafolha, o tucano não empolga o mundo político e mesmo correligionários céticos em relação ao seu potencial carismático.

Em suas aparições públicas, ainda em ambiente controlado –poucas são as viagens para fora do Estado–, Alckmin mantém o ritmo pausado, a entonação de pergunta, o jeitão professoral e as referências ao interior paulista.

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PREFEITO ANESTESISTA
Quando era prefeito [de Pindamonhangaba], eu fazia anestesia [acumulava o cargo e o trabalho de médico]. Estava de plantão, duas da madrugada, toca o telefone, uma cesariana. Fui à Santa Casa e fiz uma raquianestesia, é do umbigo para baixo, então a pessoa fica acordada, tá certo?

Fiz e fiquei lá quietinho, prefeito, né?, de máscara, gorro, acompanhando pulso, perfusão, pressão, a criança já tinha sido nascido. Aí a moça operada virou para mim: "Doutor, e no bairro do Jardim Resende, quando é que o senhor vai pôr rede de esgoto, hein?"

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POLÍTICA VIBRANTE
Para fundar o PSDB, a primeira cidade [que visitou com o ex-governador André Franco Montoro e outros] foi São José dos Campos, a segunda foi Taubaté. Pularam Pindamonhangaba, uma coisa imperdoável. Depois Guaratinguetá e a quarta, Cruzeiro.

Chegamos com duas horas de atraso. E tinha na Câmara Municipal à noite três pessoas. Nós éramos seis para fazer discurso. Aí resolvemos que só o Montoro falaria. O Montoro olhou para os três, um dormia, ele não teve dúvida: "E é o entusiasmo de vocês que nos motiva!"

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ESCOLA DA VIDA
Quando eu era estudante, fui a Goiás fazer o Projeto Rondon e fui visitar a Cora Coralina, poetisa, em Goiás Velho. Na hora de ir embora, nós éramos estudantes, ela falou: "Olha, guardem o seguinte, todos nós estamos matriculados na escola da vida, onde o professor é o tempo".

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ÁGUA ESTRAGADA
Setenta por cento do corpo humano é...? Água. Um bebezinho é...? Oitenta por cento. Nós vamos ficando mais velhos, vamos ficando mais enxutos, né? Mas 70% é...? Água. Água é...? Vida. Por isso que tem que fazer ginástica. Porque água parada...? Estraga. Então, precisa mexer o corpo.

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O MÉDICO E O ALFAIATE
Contam lá em Pinda que tinha um médico, já antigo, que tinha a fama de muito econômico. Então, um alfaiate, o Pascoal, foi lá no doutor. Na hora de ir embora, falou: "Ah, doutor, eu não tenho como pagá-lo, mas eu sou alfaiate, se o senhor precisar que um eu pregue um botão, eu estou ao seu dispor".

Aí, no outro dia, o doutor mandou um envelope com um botão dentro, dizendo assim: "Pascoal, pregue um paletó nesse botão".

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TEMPO PERDIDO
Fui candidato a prefeito em Pindamonhangaba, no século passado. Tinha uma fábrica, a 15 km de Pinda, um colégio eleitoral fortíssimo. Como todo candidato, fui ao bairro, casa por casa, com programa de governo, panfletinho, creche, ponto de ônibus, posto médico.

Cheguei em uma casa, uma senhora abriu. Criança chorava, cachorro latia, comida no forno, aquela confusão. Depois de 40 minutos, ela falou: "Olha, me convenceu. Vamos votar no senhor". Fiquei todo alegre e, já saindo, ela falou: "Falta o dinheiro do ônibus". Eu falei: "A escola é aqui perto, dá para ir a pé". "Não, doutor. Nós todos aqui votamos em Itajubá, Minas Gerais."

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A PONTE QUE CAI
Em Guaratinguetá, chega a eleição municipal, e aí o secretário de obras do município era engenheiro. Então, lançou lá um manifesto: "Guaratinguetá precisa de um engenheiro". E a coisa foi pegando. A cidade tem várias pontes sobre o rio Paraíba do Sul, e uma delas era metálica, muito antiga, tal. A ponte deu um estalo. O camarada do carrinho de hot dog que ficava na cabeceira da ponte, muito expedido, correu lá e fechou a ponte por conta dele e avisou a prefeitura.

As rádios correram lá: "A ponte pode cair!". Aquela agitação toda! O engenheiro viu a oportunidade, toda a pré-campanha dele era "Guaratinguetá precisa de um engenheiro", correu lá e, quando chegou, as rádios, ao vivo: "Olha, o doutor chegou".

Passou meia hora, o doutor voltou, deu uma aula de dilatação de materiais. Falou: "Ponte liberada. Mais 40 anos". Foguete, comemora todo mundo. Isso foi 11 horas da manhã. Três horas da tarde, a ponte ruiu. A ponte veio abaixo e a candidatura dele junto, né?

Fonte: FOLHA

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