14 de maro de 2018 às 06:45

Judas Priest e Saxon apelam para o simples e lançam ótimos álbuns

Marcelo Moreira

“Não tem segredo. Disco bom é aquele que você tem vontade de ouvir algumas vezes seguidas, até para se certificar de que é realmente aquilo mesmo, bom para cacete.”

A declaração é de Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, quando divulgava seu segundo álbum solo, “Main Offender”, em 1993. Diante da boa repercussão do CD, ele respondeu a uma pergunta sobre os clássicos dos Stones e os que ele ouvia na adolescência.

Por esse critério, então o heavy metal produziu dois clássicos em 2018, e vindos de duas bandas com mais de 40 anos de carreira.

Judas Priest e Saxon, duas bandas britânicas que surgiram na esteira dos “clássicos do rock pesado” setentista – Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, Uriah Heep e muitas outras – decidiram mostrar como se faz música pesada boa.

Seus novos álbuns não só são muito bons, são instigantes e suscitam audições seguidas. Dá vontade de ouvir novamente. A cada audição fica a sensação de que são ótimos e candidatos a clássicos do “classic heavy metal”.

“Firepower”, do Judas Priest, exala frescor e gana. Diante da progressiva piora do guitarrista e líder, Glenn Tipton – sofre da Doença de Parkinson -, o quinteto decidiu mostrar que ainda poderia aproveitar as faíscas de qualidade e criatividade que tinham.

E o fizeram muito bem. Como muito se disse nas redes sociais, remontando aos bons tempos dos anos 70, é pauleira  de primeira, com riffs certeiros e solos econômicos, mas precisos.

O produtor Andy Sneap, que vai substituir Tipton na próxima turnê mundial da banda, revelou-se o cara ideal para cuidar do som, por mais que suas boas credenciais o levassem para uma área mais sombria e modernosa do rock atual.

As guitarras estão com os timbres tinindo, como nos melhores trabalhos do período 1978-1984. É Judas Priest na veia, remetendo a clássicos como “Screaming for Vengeance”, “Hell Bent For Leather”, “Metal Gods” e muitos outros.

A primeira música liberada, “Lightning Strikes”, já dava mostras de que teríamos um som moderno, mas preservando o clima clássico do Judas.

“Firepower”, a música, reforçou essa tese, como se fosse uma continuação de “Painkiller”, aquele que provavelmente é o melhor álbum da banda. Reta, rápida, classuda, vintage e com as guitarras gêmeas gritando e mostrando todo poder do grupo.

A dobradinha “Evil Never Dies” e “Never the Heroes” bebem direto na fonte dos anos 80, com rápidas trocas de solos de guitarra e um baixo trovejante.

“Necromancer” e “No Surrender” soam mais punks e são muito rápidas, com uma condução mais direta e sem firulas, com a voz de Rob Halford tinindo e demonstrando extrema voracidade.

“Sea of Red” é a canção épica do álbum, encerrando o trabalho de forma magistral, com uma variedade de timbres e uma sonoridade mais “clássica”, onde as melodias ganham força.

“Traitors Gate” é a música que talvez represente melhor a qualidade do álbum, com suas “cavalgadas” dignas dos melhores momentos do heavy metal tradicional. Simboliza como nunca um Judas Priest, quase cinquentão, revigorado e ainda sedento.

Lançado um mês antes, “Thunderbolt”, do Saxon, emula os mesmos “pecados” que “Firepower”. Parece que as duas bandas fizeram um pacto para revitalizar um subgênero que andava claudicante, embora com algumas boas obras registradas nos últimos três anos.

A primeira faixa divulgada, a que dá nome ao álbum, de alguma forma enganou os fãs. Escondia um pouco o que estava por vir, já que nada mostrava de ousado ou diferente. É um heavy poderoso, direto e meio cru, mas nada que músicas do álbum “Sacrifice”, por exemplo, não tivessem mostrado.

Com o álbum completo, a faixa-título mostrou-se um competente “opening act”. Se o conjunto não soa tão audacioso ou rejuvenescido quanto o trabalho do Judas Priest, ao menos exala energia que parecia perdida nos CDs mais recentes.

Não há um grande hit, ao contrário de “Firepower” (escolham: a faixa-título, “Lightning Strikes”…), mas a coesão e o “conceito”, digamos assim, com certeza remetem aos grandes trabalhos da banda dos anos 90, como “Forever Free”, “Unleash the Beast” e até “Metalhead”.

“Secret Flight” tem uma pegada mais setentista, meio bluesy, mas com uma melodia mais pop, enquanto que “Nosferatu (The Vampire’s Waltz)” muda radicalmente, com seu peso amedrontador e suas linhas de baixo gordas e densas.

“They Played Rock’n’Roll” é um dos destaques. É quase um hardcore, muito pesada e muito veloz, a melhor homenagem que poderiam fazer ao Motorhead e ao amigo Lemmy Kilmister. Traz um clima mais largado, ameno, divertido, muito diferente dos trabalhos recentes.

O Saxon ainda flerta com o épico em “Sons of Odin” e com o metal tradicional oitentista nas ótimas “Predator” e “Roadie’s Song”, onde as performances parecem demonstrar uma banda mais solta e descontraída.

Quando o Iron Maiden lançou “The Book of Shadows”, os elogios foram fartos, pois de fato o álbum era excelente, mas exalava aquela arrogância típica de bandas que sabem estão lançando grandes álbuns, ou que acham que estão lançando grandes álbuns, como é o caso do U2 com os medianos “Songs of Innocence” e “Songs of Experience”.

Saxon e Judas Priest se despiram que qualquer pedantismo. Sabem que ainda precisam provar algo sempre, assim como todos nós e como todas as bandas, mas não colocaram isso como meta.

Assim como o Motorhead procurou se divertir e fazer apenas bom rock’n’roll em seus dois últimos álbuns, os dois monstros do metal tradicional entraram no estúdio para se divertir e produzir boa música. Calhou de a inspiração ajudar bastante e eles produzirem seus melhores trabalhos desde “Painkiller” (de 1991, no caso do Judas Priest”) e “Unleash the Beast” (de 1997, no caso do Saxon).

Deve dar um orgulho danado produzir um punhado de músicas que não dá vontade de parar de ouvir. Só daqui a um bom tempo saberemos se os dois CDs se tornarão clássicos, mas certamente serão ouvidos por muito tempo.

<PP

Fonte: UOL

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