12 de abril de 2018 às 07:00

Leve e corajoso, Phil Collins abre o coração em 'Ainda Estou Vivo'

Marcelo Moreira

Um homem que foi construído pela música, e destrupido por ela; um homem torturado pela culpa e pelo remorso, mas que não foi paralisado por ela; um homem sem pudor de rir de si mesmo, que “elogia” suas próprias contradições, ainda que sabendo que desagradará meio mundo.

Phil Collins transformou, em sua autobiografia, aquele cantor/baterista baixinho e impertinente em um personagem muito interessante e quase fascinante, ombreando sua obra com a importante “Crossroads”, a história do guitarrista Eric Clapton.

Espirituoso e bem humorado, o texto de “Phil Collins – Ainda Estou Vivo”, aposta no texto leve e nas anedotas de uma vida profissional de mais de 50 anos entremeando a cronologia da autobiografia. O resultado é muito bom,

O livro, lançado em 2016 na Inglaterra e nos Estados, chega a sua versão brasileira no começo deste ano pela editora BestSeller, coincidindo com a primeira passagem do artista pelo Brasil em versão solo – já tinha tocado por aqui em 1977 com o Genesis. Pena que o texto brasileiro seja desleixado, seja do ponto de vista da revisão, seja em relação à tradução.

Em nenhum momento Collins tentou ser um estilista, como o próprio Clapton ou Pete Townshend (na ótima autobiografia “Who I Am”); evitou ser prolixo como Bob Dylan, optando por um estilo mais reto e sem firulas adotado, por exemplo, por Bruce Springsteen.

No entanto, nenhum astro do rock foi mais fundo nas próprias feridas do que Collins. Se Clapton buscava explicações diversas e divagava ao expor seus fantasmas, Collins não perde tempo ao falar dos motivos dos três divórcios e da culpa que sentiu por ficar longe dos três filhos mais velhos – são cinco, no total, em três casamentos.

Ele não mede palavras: a música o construiu e o elevou aos patamares mais altos, lhe deu muito dinheiro e muitos prêmios, mas também o dilacerou internamente, fazendo-o perder parte da vida em família que tanto prezava, por mais que a contradição o detone: ele ama os palcos, as turnês, os estúdios. Como conciliar? O que era mais importante?

O resultado do dilema, além das famílias esfaceladas, pode ser visto também na saúde do cantor, especialmente no século XXI, que foi de pés quebrados e problemas graves na coluna e alcoolismo.

Da mesma forma em que coloca os dramas pessoais e emocionais para fora, Collins tenta analisar de forma sóbria a sua trajetória com o Genesis e em sua carreira solo – consegue isso na maioria das vezes.

Mesmo fazendo questão de louvar a amizade com os ex-companheiros de Genesis, não economizou no sarcasmo e na mordacidade ao analisar as relações entre os integrantes.

Critica veemente a rixa entre o vocalista Peter Gabriel e o tecladista Tony Banks e brinca com o guitarrista Steve Hackett, a quem chama de “opaco”, além de elogiar o guitarrista/baixista Mike Rutherford por se postar como o “apaziguador/mediador”.

Embora dedique muito espaço para descrever a sua infância e a sua formação como artista – foi ator mirim de teatro e televisão em Londres agenciado por sua mãe, June -, Collins é econômico para falar da formação do Genesis e da importância capital que a primeira fase da banda teve em sua carreira.

Ele menciona turnês importantes, algumas dificuldades de relacionamento na primeira metade dos anos 70 e reclama de ser considerado quase até a saída de Peter Gabriel, em 1975, de ser considerado o último na hierarquia do grupo – por ter chegado por último, ficava com os piores quartos nos hotéis e nos estúdios e percebia um ar de indolência e certo menosprezo por parte dos companheiros.

Meio sem querer, extravasa um complexo de inferioridade, pois se considera, então, um garoto comum de subúrbio em uma banda onde os então três líderes são ricos e estudantes de colégios caros e de elite.

Essa tensão de classes, digamos assim, vai permear toda a relação de Collins com o restante da banda pelos 40 anos seguintes, por mais que ressalte a grande amizade que os une e que seu sucesso na carreira solo seja maior do que a dos outros quatro juntos.

Esse complexo de inferioridade transparece também quando se refere aos músicos do mesmo calibre com quem se relaciona. Por ser mais novo que os grandes nomes do rock britânico, Phil os vê como heróis, e assim ocorre por muito tempo mesmo quando toca ou se torna amigo deles.

Fã dos Beatles, tem veneração por George Harrison, que o trata bem, mas de forma distante, anos depois de ter tocado percussão em “All The Things Must Pass”, o álbum triplo do ex-beatle lançado em 1971.

Também a relação com o amigo Eric Clapton tem um começo meio esquisito até que o guitarrista finalmente reconhece Collins como um igual e um talentoso músico e compositor.

No final da obra, ele relata seu nervosismo ao encontrar a cantora Adele, então artista mundialmente famosa e vendendo horrores. Ela ligou e lhe pediu ajuda para terminar de compor uma canção. Hein? Como assim? Nervoso por falar com uma cantora que tem um terço de sua idade e um décimo de seu sucesso comercial?

O autor ainda foi bastante corajoso ao falar dos casamentos e dos relacionamentos com os filhos, ao estilo Clapton e Springsteen. Neste aspecto, deixou de lado a elegância e mergulhou fundo na descrição de como ajudou a implodir os três casamentos e como ainda tem, dificuldades em lidar com isso.

A autobiografia de Joe Perry, o mago da guitarra do Aerosmith, frequentemente é citada como um exemplo de narrativa detalhada e bem explicada dos bastidores do rock e de como muitos astros tentam (aspiram?) ser pessoas normais em um mundo de celebridades e muito dinheiro. Isso é verdade, mas “Ainda Estou Vivo” certamente ganha neste quesito, já que aprofunda essa e várias outras questões.

Collins construiu uma obra de qualidade e divertida, além de didática. Seu humor britânico é uma atração à parte, e conseguiu sobreviver a um texto brasileiro cheio de imprecisões e erros de revisão, como bem apontaram fãs nas redes sociais. Nada, no entanto, que comprometa a leitura interessante.

A destacar outro ponto negativo, a falta de referências biográficas e históricas – as chamadas notas de rodapé – a respeito de citações de locais e personalidades que passam pelo livro. Não são todos, por exemplo, que sabem que é John Cleese, do Monthy Python, o maestro Quincy Jones ou a tonelada de músicos de jazz citados ao longo da obra.

Fonte: UOL

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