16 de abril de 2018 às 21:43

Mia Couto cita ataque à Síria e homenageia Marielle em lançamento de livro

O escritor Mia Couto citou os recentes bombardeios à Síria e fez uma homenagem a Marielle Franco durante o evento de lançamento de seu novo livro na noite desta segunda-feira (16) em São Paulo. O moçambicano dedicou sua fala final à vereadora e ao motoris

O escritor Mia Couto citou os recentes bombardeios à Síria e fez uma homenagem a Marielle Franco durante o evento de lançamento de seu novo livro na noite desta segunda-feira (16) em São Paulo. O moçambicano dedicou sua fala final à vereadora e ao motorista Anderson Gomes, assassinados a tiros no mês passado no Rio de Janeiro.

"Há quem queira esquecer os que tombaram vítimas do ódio. Há os que queiram esquecer Marielle Franco. A Marielle Franco e Anderson Gomes eu dedico esse meu texto", disse Mia. A plateia reagiu com aplausos, gritos de "Marielle, presente", "Lula livre" e "Fora, Temer".

O romance "O Bebedor de Horizontes" retrata a saga final do imperador moçambicano Gugunhana, governante de um império na África no século 19. No último volume da trilogia, os prisioneiros do oficial Mouzinho de Albuquerque embarcam no cais de Zimakaze em um barco que parte em direção ao posto de Languene. De lá, irão seguir para o estuário do Limpopo e então iniciar a viagem marítima que conduzirá os africanos capturados para um distante e eterno exílio, em uma das ilhas dos Açores.

Com a comitiva segue Imani Nsambe, jovem negra que estudou numa missão católica e serve como intérprete entre os nativos e as autoridades portuguesas. Imani está grávida do sargento português Germano de Melo, alocado em outra parte de Moçambique. A tradutora narra os trágicos acontecimentos do final do império de Gaza, que se alternam no romance com as cartas do sargento.

"Quando eu construí este livro eu tive que ir à procura de memórias, sabendo que elas não estavam exatamente em um lugar, estavam nas canções, nas gentes várias. E percebi que quando eu ia nossa busca da memória, o que eu mais encontrava era o esquecimento. E esse esquecimento tinha um dono, tinha uma intenção, era uma arma. Com essa arma, nos querem fazer esquecer de muita coisa. dos genocídios, do tráfico de escravos, das ditaduras, que deixaram atrás de si, no Brasil, em Moçambique, tanto sangue, tanta morte", declarou o escritor.  

Mia disse ainda que se recordou, ao longo da escrita do livro, de quando era criança e gostava de filmes de caubóis, "histórias de pistoleiros brancos que heroicamente defendiam suas terras da ameaça dos selvagens peles vermelhas". "Essa inversão da história, que convertia as vítimas em culpados só mais tarde me surgiu com clareza", continuou.

Além dos recentes ataques à Síria, promovidos por Estados Unidos, França e Reino Unido, o moçambicano citou os genocídios de índios americanos, os ataques de 11 de Setembro de 2001 e as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki - quando declamou o poema "A rosa de Hiroshima", de Vinícius de Morais - finalizando com a memória a Marielle.

O evento organizado pela editora Companhia das Letras, reuniu no palco do Teatro Porto Seguro atores que leram trechos da obra de Mia Couto, o próprio autor, e a musicista Lenna Bahule, que cantou e tocou músicas de seu repertório.

Fonte: UOL

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