31 de janeiro de 2018 às 06:41

Precisamos de mais festivais de música em todo o país.

Marcelo Moreira

O panorama musical ainda continua cinzento, exceto para os sertanejos e funks cariocas da vida, e só não ficou mais complicado por conta da existência de vários festivais em todo o país, fazendo com que seja possível identificar alguns circuitos, principalmente no metal e no blues.

Se o Samsung Blues Festival privilegia grandes nomes, o Ilhabela Festival, o Santos Jazz and Blues Festival, o Rio das Ostras Festival, o Mississippi Delta Blues Festival e tantos outros garantem a diversidade e a chance para que nomes pouco divulgados apareçam – e torçamos para que o Garanhuns Jazz Festival retorne em 2018.

No metal a oferta também é bem interessante, como o Thorhammerfest, o Roça’n’Roll, Maniacs Metal Meeting, o Garu Metal Fest e alguns outros.

Os alternativos fazem a festa com o Lollapalooza, o Porão do Rock, o Abril Pro Rock, o Se Rasgum e o Do Sol, por exemplo, que são tão importantes que a cada ano revelam boas bandas em todos os subgêneros.

É um cenário bacana, com boas opções? Sim, muito interessante, mas insuficiente diante de tantas possibilidades legais que o país oferece –  ah, se tivéssemos uma política cultural geral e local de verdade, que se importasse com os novos artistas…

Qualquer comparação com a cena de países europeus é indevida por conta de fatores óbvios, como tamanho da população, dinheiro disponível e qualidade de vida. No entanto, exemplos de políticas culturais estão em toda a parte, mas são solenemente ignoradas pelos municípios e Estados brasileiros.

Um caso antes bem-sucedido (e que foi destruído pela visão míope de uma administração até agora incompetente) foi o da Virada Cultural de São Paulo, um dos eventos mais interessantes realizados no Brasil. Quando a curadoria é bem feita e a organização dá conta do recado, torna-se uma opção com evidentes ganhos para todos. Por que não se realiza mais de uma vez ao ano?

Essa é a questão. Se não podemos ter um panorama como o da Finlândia, da Suécia, da República Checa ou da Polônia – países infinitamente menores, com populações pequenas e situação financeira menos problemática, mas que realizam festivais de música semanalmente -, por que não construir um circuito de festivais que ofereça a chance para artistas novos ou com pouca visibilidade?

Woslom em festival de metal em São Bernardo, em 2014, no Parque da Juventude (FOTO: MARCELO MOREIRA)

Somente no Estado de São Paulo há 15 cidades de porte médio que comportam festivais básicos, sem grandes produções – e isso falando apenas no rock.

Guarulhos, Osasco, São Bernardo, Santo André, São Caetano, Mauá, Diadema, Santos, São José dos Campos, Bauru, Sorocaba, Piracicaba, Presidente Prudente, Araçatuba, Ribeirão Preto, Araraquara, São Carlos, São José do Rio Preto, Catanduva, Campinas…

Se cada uma delas realizasse um festival de rock por ano, com apoio do poder público, seria possível cobrir quase um semestre no caso da criação de um calendário – um festival desse por semana. E isso sem falar em cidades mineiras roqueiras como Uberlândia, Uberaba, Araxá, Varginha, Pouso Alegre, ou as paranaenses que poderiam ser integradas, como Maringá, Londrina, Cambé e outras.

“Existem bons festivais no Brasil, mas pelo tamanho e pela potencialidade, ainda são poucos”, diz um guitarrista de uma banda de rock nacional de primeiro escalão, mas que pede para não ter o seu nome revelado. “O número é insuficiente e a concorrência é grande. Fica complicado ser contratado para um deles, e depois entrar no outro de grande parte. À primeira vista parece injusto, mas não tem jeito, é cada um correndo atrás do seu.”

Ou seja, não tem bolo para todo mundo. A questão é controversa, porque, de certa forma, é uma alternativa que sugere a participação do poder público com verbas para a cultura.

Muita gente apresenta argumentos relevantes para rechaçar essa eventual “dependência” do dinheiro público para empreendimentos culturais, ainda mais ligados à música. só que não se trata de dependência, até porque o dinheiro está lá, no orçamento das cidades e dos Estados. Só não são executados a contento, geralmente por questões políticas (entre elas, infelizmente, a corrupção), por preconceito e mesmo por incompetência – quem dirige as Secretarias de Cultural geralmente está lá por indicação política, não é do ramo.

Essa é apenas uma dentre tantas opções que podem ser implementadas, ainda mais em tempos de crise, mesmo quando administrações políticas fazem cortes – e a cultura é alvo preferencial.

Se cada grande cidade de São Paulo ou cada grande capital brasileira fizesse um festival de rock de baixo orçamento, com uma grande atração e várias outras autorais e novatas, seria possível ter ao menos dois festivais legais mensais, no mínimo, além dos já citados no começo do texto.

Houve um tempo em que isso ocorreu, quase de forma casual, no ABC paulista, no começo dos anos 2000. Era uma época de crise econômica, mas que foi se dissipando à medida que os anos passavam.

Santo André teve uma meta, na administração de João Avamileno (PT, 2002 a 2008), de fazer um festival de música mensal, quase sempre no Parque Central ou no Parque da Juventude. Quase conseguiu, mas foram várias edições naquele período administrativo.

Graça Cunha durante festival de blues no Teatro Municipal de Santo André (FOTO: MARCELO MOREIRA)

São Bernardo costumava fazer dois eventos de rock por ano, a custo baixíssimo, seja no Parque da Juventude, perto da prefeitura, ou atrás do ginásio poliesportivo Cidade de São Bernardo, na administração William Dib (PSB, 2002 a 2008). O sucessor, Luiz Marinho (PT, 2008 a 2016), aumentou mais uma data anual para o rock, além de outros gêneros musicais.

As duas cidades provaram que era possível, com o fomento do poder público e uma curadoria séria e competente, estimular projetos culturais com o intuito de promover novos artistas ou artistas que tinham pouca visibilidade, privilegiando sempre os locais – mas nem sempre, para evitar a tal reserva de mercado.

Precisamos de mais festivais de música, de todos os gêneros, que permitam o surgimento de artistas novos e que outros sem tantos “contatos empresariais” consigam um lugar ao sol.

Longe de estabelecer uma dependência cultural e financeira, o fato é que o poder público pode ajudar na criação de um circuito, ainda que informal, de fomento ainda maior ao rock. Temos festivais bem bacanas, mas é possível organizar muitos mais. Quem sabe as eleições gerais de 2018 não sirvam para que essa situação melhore e saia da pasmaceira?

Fonte: UOL

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