30 de janeiro de 2018 às 07:00

Saudável sucesso do Maglore infelizmente é exceção no Brasil

Marcelo Moreira

Maglore no CCSP (foto: Debora Oliveira)

De um lado, meia dúzia de bandas indie levando um público de razoável para bom em casas pequenas de shows; de outro, velhos medalhões tendo de inventar novos truques para recuperar parte do público que um dia gostou de rock; no meio, milhares de artistas ainda correndo atrás de qualquer espaço para tocar.

Muita gente insiste em louvar e exaltar o fato de que, recentemente, o grupo Maglore levou um bom público ao Centro Cultural São Paulo, a preços mais baixos. Esse mesmo pessoal viu ali sintomas de vitalidade do rock alternativo no Brasil.

Se o rock nunca esteve perto de morte, nem  aqui e nem no exterior, vive um momento de baixa e de pouco prestígio.

Bandas como Maglore, Autoramas, Boogarins, Far From Alaska e mais duas ou três por aí não servem de termômetro, muito menos para formar uma cena. Não passam de exceções, e são casos que merecem muita atenção e merecem ser estudados.

Conseguiram arregimentar um bom público em vários locais do Brasil e conseguiram apoio de selos e de produtoras pelo Brasil graças à qualidade de seu trabalho. No entanto, servem no máximo como exemplo de boa administração e gestão em um mundo devastado do mercado musical – não existe mais indústria do gênero, e faz tempo.

Da mesma forma, é bom todos olharem de vez para a gestão bem-sucedida de carreiras e de mercado que os sertanejos inomináveis conseguiram nos últimos anos, por mais que lamentemos toda a sorte de promiscuidade e vícios que essa “indústria” nunca deixou de lado.

Se uma meia dúzia de indies teve competência administrativa e soube aproveitar os ventos muito favoráveis para obter patrocínios, apoios diversos e forma um público bacana, a realidade para outras centenas de artistas é diversa e nada glamourosa. Sem lugares para tocar ou qualquer apoio, aguentam por um tempo a vida dura e depois transformam a música em hobby.

O grosso das reclamações costuma vir rock pesado nacional e do blues, não sem motivos. São cada vez menores as oportunidades para tocar graças a uma lógica perversa do mercado, que erode carreiras e possibilidades ancoradas em uma grave crise econômica e a uma suposta busca de clientes via popularização/precarização das “ofertas artísticas”.

É um mercado que privilegia as bandas cover, que fazem versões alheias, e medalhões do rock nacional que ainda sobrevivem do passado, seja com nova roupagem – caso do Ira! com a boa ideia do Ira! Folk -, seja com material inédito que ecoa velhos clichês, casos de Humberto Gessinger e Frejat em carreira solo.

Para cada show lotado de Edu Falaschi cantando as músicas de sua fase do Angra há dez apresentações de bandas menores, mas com estrada, com público minguado, gente que se recusa a pagar R$ 20 para tentar se surpreender com coisas novas, mas que faz questão de pagar R$ 200 para o Deep Purple tocar as mesmas dez músicas há 50 anos.

Culpar o público há tempos deixou de ser uma boa ideia, até porque é inútil. Há pelo menos 15 anos observamos uma mudança triste no comportamento em vários subgêneros.

A música autoral foi desvalorizada e mesmo bandas muito boas como Vanguart, Macaco Bong e O Terno não navegam em águas sossegadas como as bandas queridinhas do mundo indi-e alternativo citadas mais acima.

Desvalorização que, por sinal, atinge a música como um todo no mundo inteiro, onde o consumo rápido e seu consequente descarta ainda mais veloz tornam obras musicais meras amostras grátis, com uma falta de fidelização que artistas e empreendedores ainda não descobriram como combater.

Esse mundo novo nada admirável, no qual poucos conseguem achar soluções satisfatórias, se assemelha muito com o futebol brasileiro, no qual menos de 500 jogadores de 15 ou 20 times conseguem salários acima de R$ 10 mil ou R$ 20 mil, enquanto o resto dá graças a Deus quando fecha contrato por R$ 1 mil mensais, para dois meses depois levar calote de toda uma sorte de clubes falidos e quebrados há décadas.

Não se trata de criticar quem louva o fato de um Maglore tocar para casa cheia em São Paulo – tomara que repitam isso sempre e que mais bandas trilhem o mesmo caminho.

A questão é que isso, infelizmente, só ocorre, e já há algum tempo, de forma localizada e com poucos artistas. São exceções em um mercado devastado, e isso não pode ser perdido de vista. No entanto, quase ninguém enxerga tal situação. A realidade do Maglore e dos Boogarins é inversamente proporcional à da maioria das bandas de rock do Brasil.

Fonte: UOL

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