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14 de janeiro de 2018 às 02:00

Vice de Alckmin cobra 'gestos' do PSDB fora de SP por Presidência

Vice-governador de São Paulo, Márcio França (PSB), 54, tem hoje 3% das intenções de voto para o governo do Estado, segundo o Datafolha. Porém, aposta na projeção que terá ao assumir o Bandeirantes, quando Geraldo Alckmin (PSDB) renunciar para disputar a P

Vice-governador de São Paulo, Márcio França (PSB), 54, tem hoje 3% das intenções de voto para o governo do Estado, segundo o Datafolha. Porém, aposta na projeção que terá ao assumir o Bandeirantes, quando Geraldo Alckmin (PSDB) renunciar para disputar a Presidência.

Ex-prefeito de São Vicente e ex-deputado federal, França é conhecido por sua capacidade de articulação política: hoje, espera ter uma base de ao menos sete partidos, que lhe dariam exposição de rádio e TV na campanha.

Em entrevista em seu gabinete, diz que compreende uma candidatura do PSDB e que, apesar do confronto com os tucanos, terá o apoio do governador: "Serei um dos candidatos do Alckmin. Ele fez essa opção quando me convidou para ser vice, sabendo que eu iria assumir".

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Folha - O sr. assume São Paulo quando Alckmin deixar o governo e disputará a reeleição...
Márcio França - Toda a minha chance é resultado do cargo. Sou conhecido por 7% do Estado, é um número muito baixo. Venho de um eleitorado restrito [da Baixada Santista]. Desde o início, tenho dito que seria candidato. Sendo franco, o governador é experiente. Quando ele me escolheu como vice, sabia que deixaria a sucessão comigo. Me sinto, de alguma forma, prestigiado e escolhido por ele.

Ele vai renunciar porque a lei exige, e já disputou a Presidência numa eleição muito mais difícil que essa [em 2006], com o Lula em alta, e perdeu por 6% [França se refere ao primeiro turno, quando a diferença entre Lula e Alckmin foi de 6,9 pontos percentuais; no segundo turno, ela foi de 21,6 pontos percentuais]. Tirando os neófitos, qualquer um que você pergunte, hoje, quem é o favorito, dirá Alckmin.

O Bolsonaro está em partido com tempo muito pequeno de rádio e TV, tem só um deputado. Ele terá o tempo de um deputado, o que significa que terá de somar vários dias para ter um comercial de 30 segundos. Ele será atacado e não terá como se defender.

Alckmin parece ser o candidato do centro, que está se fragmentando. Especula-se que Rodrigo Maia possa se candidatar, Henrique Meirelles.
Desde a eleição passada, as pessoas sempre vão com nomes. E o [Luciano] Huck? E o Maia? E o Joaquim Barbosa? Se outros nomes surgirem, a análise será diferente.

Com a presidência do PSDB na mão, Alckmin é um dos "players". Não há por que não imaginar que ele não estará no segundo turno, ele é o franco favorito a ter mais tempo de rádio e TV.

[França desliza o celular em sua direção, sobre a mesa de seu gabinete. Então mostra uma cartografia dos resultados das últimas eleições no Brasil: um país representado de vermelho no Norte e Nordeste, onde o PT tem a maioria dos votos, e azul no Centro-Oeste, Sul e Sudeste, onde o PSDB tem a preferência. Sua tese é que, para vencer a eleição, os tucanos precisam aumentar a vantagem no Nordeste, mais petista.]

Eliminando-se Bolsonaro pelo tempo de TV, fica entre PT e PSDB. Possivelmente, sem o Lula –o mais provável é que o PT indique o Jaques Wagner [ex-governador da Bahia], que é de um Estado grande e tem um sucessor. O eleitor tende a votar no candidato do seu Estado. Assim como no Ceará, a tendência é de se votar num candidato do Ciro. A margem que sobra [de votos] na Bahia e no Ceará é pequena, então o foco fica em Pernambuco.

Que é onde o PSB tem força.
Tem força. Desde o início, o governador de alguma forma anteviu isso. Ele é uma pessoa discreta e estudiosa.

E vocês conversam sobre isso?
Várias vezes. Ele sabe da importância de um movimento que tente quebrar [o favoritismo do PT no Nordeste].

Pernambuco poderia ajudar Alckmin a definir a eleição?
O Pernambuco, claro, mas Minas tem uma importância grande. O PSDB perdeu lá em 2014, ainda que por pouco.

A eleição em São Paulo pode ter três candidaturas governistas: a sua, a do PSDB e a de Rodrigo Garcia (DEM), secretário de Habitação. Não é confuso?
A candidatura do DEM em São Paulo tem a ver com o posicionamento nacional. Hoje, o DEM está bem pela força do Rodrigo Maia na presidência da Câmara. Os tempos de TV em São Paulo estarão divididos entre mim, PSDB e PMDB, com o Skaf. São os três que têm chance de chegar ao segundo turno.

Alckmin recebeu acenos nos últimos dias de Kassab (PSD) e Temer (PMDB). E do PSB?
O nosso está feito desde o início. Ele sabe que o PSB tem um respeito muito grande por ele, mas é um partido nacional. No Nordeste, o Lula está bem na frente, diferente daqui. No nosso caso, boa parte da bancada de deputados e de diretórios estaduais seria favorável ao Alckmin, mas não queremos prejudicar ninguém.

Prejudicar quem?
Quem está no Nordeste, e lá o PT tem vantagem. Na Paraíba, o [governador] Ricardo Coutinho é muito amigo do Lula. Uma mudança de posição total é sempre um trauma.

E tem um detalhe, sintomático: se o Lula será condenado e se sua candidatura será impugnada. O PT é forte, é competitivo mesmo sem o Lula, tenho dito constantemente.

Com o Jaques Wagner?
Sim. Acho que tanto Lula quanto Jaques estariam no segundo turno. Difícil não imaginar que Jaques não terá 25%, 26% dos votos. Um pedaço dos votos de Lula vai para o Jaques, e o Jaques é uma pessoa muito habilidosa.

Ele ganha a eleição? Depende. Num segundo turno com o Bolsonaro, todo o PSDB vai votar no Wagner.

O sr. acha mesmo?
É difícil votar no Bolsonaro para quem é democrata e tem histórico político. Ele tem seus méritos, mas a lógica dele é outra lógica. Uma posição do Bolsonaro no segundo turno leva o adversário quase para a eleição.

O segundo turno ele vai definir a partir de quem tem mais rejeição. Alckmin é o grande favorito, ele tem muito menos rejeição que qualquer outro nome. A posição dele é de centro. Mesmo nos momentos mais duros, ele não criticava a Dilma e o Lula com agressividade. Ele não angaria ódios.

Mas tem o desafio de crescer nas pesquisas.
Acho totalmente desnecessário. Em média, tenho 3%, 4% dos votos. Quem é do jogo percebe: o Márcio França vai assumir? Tem tempo de TV? Ele é competitivo. É a mesma lógica do Doria: eu falava que ele chegaria ao segundo turno quando tinha 2% e todo mundo dizia que ele não tinha chance.

Para onde o PSB vai?
Se depender de mim, Alckmin. Teremos um congresso em junho, que é quando o partido se vai ter ou não candidato a presidente.

Especula-se que Joaquim Barbosa se filiará ao PSB para disputar a Presidência.
Ele tem falado com o presidente [do PSB], Carlos Siqueira, e com o nosso secretário, Renato Casagrande. Pelo que tem dito, iria decidir só neste ano. Está inseguro, com razão. A filiação do Joaquim é um fato nacional, ele é conhecido e respeitado. O Aldo Rebelo, nesse ínterim, foi lá e protocolou o interesse de disputar.

Barbosa já deu algum sinal?
Já falou que estava pensando, que gostaria de participar politicamente –como o Huck.

Outros partidos, como o PDT de Ciro e a Rede de Marina, têm cortejado o PSB?
Temos boas relações com todos. A Marina já foi nossa, o Ciro já foi nosso, minha relação com Alckmin pesa. Tem a ver com quem vai fazer os gestos que ajudem o partido.

Gestos aqui em São Paulo?
É o menos importante. É normal que o PSDB, que está no governo há anos, queira ter candidato. Eu compreenderei. Agora, acho que o PSDB deve fazer gestos no Brasil –Pernambuco, Brasília, Espírito Santo, Amapá. Lugares onde estamos na frente, para que não pensem que isso é por conta de São Paulo. Senão dá a impressão de que eu estou falando isso porque quero o apoio do PSDB aqui.

Se PDT e Rede apoiarem o sr., ajuda o PSB a se definir?
O meu apoio irá para o Alckmin. Como vice, não tenho como não defender o legado. Meu grau de lealdade é 100%. O foco de um partido deve ser a sua principal disputa: a Presidência. Tem que acomodar situações. Se você tem uma candidatura à Presidência, tudo tem que servir a ela. Acho que muita gente, até do PSDB, pode não achar isso, pode achar que é mais importante São Paulo do que o Brasil.

O sr. costurou a aliança que deu o tempo de TV a Doria. Esses partidos [PV, PR, PPS, PSC, PEN, por exemplo] estarão com o sr.?
Provavelmente.

E numa candidatura de Doria ao governo, que está sendo discutida, como fica a base?
Ele vai ter que montar a engenharia dele. Não tenho por que não confiar no Doria. Ele disse mais de uma vez que seria o melhor prefeito de São Paulo, faria um grande governo e cumpriria o mandato. Ele vai honrar a palavra a mim, ao Alckmin e à população.

Quem espera que seja o candidato tucano?
O mais preparado é Serra. Se fosse tucano, diria isso. Mas não sei se ele tem disposição.

E a Lava Jato [Delatores da Odebrecht acusam José Serra de ter recebido propina para caixa dois eleitoral]?
A Lava Jato é o seguinte: a pessoa está condenada, definitivo? Se não está, é inocente. Para mim, o Serra é inocente até que se prove o contrario.

O sr. espera enfrentar oposição do PSDB no governo?
[Pausa] Acho que não. Me dou bem com a grande maioria dos deputados, temos um amplo apoio na Assembleia.

O sr. tem cerca de 30 deputados, a Assembleia tem 94.
Hoje, mas eu garanto que vamos ter muito mais que isso. Até porque abrem-se as janelas, haverá muita mudança.

O PSDB também poderá dizer que é governista na campanha. Como o sr. irá se descolar?
Não preciso de nada muito especial. Sou fundador do PSB, não sou do PSDB. Tenho histórico de convivência com Miguel Arraes, Eduardo Campos. Meu partido tem posições que não são as do PSDB, visões mais sociais, uma visão de Estado diferente.

É impossível não reconhecer os acertos feitos em São Paulo, como a estabilidade [fiscal], assim como reconheço os do PT no governo federal. Numa eventual vitória minha, não é troca absoluta. Eu seria uma novidade, mas com experiência. Acho que o paulista quer algo a mais, sem perder o que já conquistou. Quando você está no poder, como o PSDB, há muitos anos, há um esgotamento.

O eleitor paulista se sente cansado do PSDB?
Não. Acho que o paulista gostaria de algo que seguisse a linha do Alckmin e tivesse viés de novidade.

O sr. terá pouco tempo. O que pretende fazer?
Difícil fazer grandes mudanças. As mudanças têm a ver com programação orçamentária, aqui em São Paulo é tudo muito institucional. Haverá certamente espaço para as pessoas perceberem algum tipo de mudança.

Fonte: FOLHA

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